O design, a série Cosmos e o método científico

Publicado por Rodrigo Quaresma no dia design, gestão

Cosmos: A Spacetime Odissey

Algumas semanas atrás, assisti a uma série no Netflix chamada Cosmos: A Spacetime Odissey. Não sei se é um comportamento comum, mas eu possuo o hábito de fazer referência de qualquer coisa com a rotina do meu trabalho como designer. E, assistindo à Cosmos, não foi diferente.

A série propõe democratizar um pouco de ciência e, com uma linguagem simples e didática excelente, ela alcança o seu objetivo ao colocar conceitos científicos ao alcance dos de meros mortais como eu. A versão que assisti era um remake apresentado pelo astrofísico Neil deGrasse Tyson - pupilo de outro grande cientista chamado Carl Sagan - um dos maiores divulgadores da ciência. Não por coincidência, Sagan era o apresentador da versão original.

Durante todos os episódios foi possível identificar explanações que podem ser relacionadas com o dia-a-dia de um designer buscando soluções de problemas. Um trecho em específico foi o que me motivou a escrever este post. É a parte em que a série exibe uma dramatização, que deve ter ocorrido por volta do século X, na qual Ibn Al-Hazen - considerado um dos mais influentes cientistas de todos os tempos - explica aos seus discípulos o que seria a base do método científico.

[Neil deGrasse Tyson] Ibn Al-Hazen foi o primeiro a ditar as regras da ciência. Ele criou um mecanismo de correção de erros de forma sistemática e inexorável de examinar os erros em nosso raciocínio.

[Ibn Al-Hazen] Encontrar a verdade é difícil e o caminho é acidentado. Como buscadores da verdade, o melhor é não julgar e não confiar cegamente nos escritos dos antigos. Questionar e examinar criticamente o que foi escrito, por todos os lados. É preciso aceitar apenas o argumento e experiências e não os dizeres de qualquer pessoa. Pois todo humano é vulnerável a todos tipos de imperfeições. Como buscadores da verdade, devemos também suspeitar e questionar nossas próprias ideias ao investigarmos fatos para evitar preconceitos ou pensamentos descuidados. Sigam este caminho e a verdade lhes será revelada.

[Neil deGrasse Tyson] Este é o método científico.

[da série “Cosmos: A Spacetime Odissey”, Temporada 1, Episódio 5: Escondido na Luz, 13’15’‘]

A relação entre método científico e design não é novidade. Inclusive, é algo bastante corriqueiro no mundo inteiro. Mas, me chamou atenção como o discurso de Al-Hazen faz parte do meu dia a dia.

Diariamente, eu preciso relembrar desses preceitos, pois é muito fácil desviar do caminho e dissassociar o meu trabalho de designer do método científico. Para deixar mais claro como eu fiz essas associações busquei descrever algumas situações de acordo com determinados trechos do texto.

[Ibn Al-Hazen] Encontrar a verdade é difícil e o caminho é acidentado. Como buscadores da verdade, o melhor é não julgar e não confiar cegamente nos escritos dos antigos.

Quem nunca citou ou aplicou os ensinamentos de Nielsen cegamente? Ter um ponto de partida e conhecer os ensinamentos dos “antigos” é um atalho bastante útil, mas tenha cuidado. Você pode estar diante de novas situações nas quais esses conhecimentos não se aplicam da forma exata como foram aplicados para quem os popularizou.

Busque a verdade - independentemente do que foi dito por quem quer que seja. Não julgue uma interface ou pesquisa só pela assinatura, seja ela do Google, do próprio Nielsen ou do seu colega que acabou de chegar na empresa.

[Ibn Al-Hazen] Questionar e examinar criticamente o que foi escrito, por todos os lados. É preciso aceitar apenas o argumento e experiências e não os dizeres de qualquer pessoa. Pois todo humano é vulnerável a todos tipos de imperfeições.

Aqui, gostaria de lembrar que sempre existe o outro lado da estória. Então, é importante se policiar e evitar a tendência de ficar do lado que mais gostamos. Não é toda interface que precisa ser como a da Apple para ter sucesso, nem toda cafeteria precisa ser como a Starbucks para encantar os clientes. É preciso questionar e experimentar para encontrar e aceitar o motivo que traz o verdadeiro sucesso para todos as partes do serviço ou do produto que desenvolvemos. Mesmo que você trabalhe na Microsoft desenvolvendo o Windows.

Lembre-se de não acreditar somente naquilo que observamos ou que nos contam sem questionar outras versões ou pontos de vista. Um exercício simples para entender como isso pode ser enganoso é tentar se colocar no lugar de alguém que viveu no século XVI - momento de efervecência da discussão sobre heliocentrismo e geocentrismo. Hoje é muito tranquilo saber qual das teorias anteriores é a mais correta pois temos fatos e equipamentos que provam isso. Contudo procure pensar com a cabeça do século XVI. Os antigos haviam escrito o que parecia óbvio: o sol gira ao redor da terra. Se observássemos com os equipamentos disponíveis na época também veríamos isso. Mas, e quanto a versão de que é o planeta Terra que gira ao redor do Sol? Como provar que esse pensamento está incorreto? Como provar que está correto?

Se não mantivermos a mente aberta para “novas” teorias que contrariem o escrito dos “antigos”, corremos o risco de não evoluir. Por isso, tome cuidado ao observar um usuário utilizando uma interface para não divulgar conclusões apenas a partir do que foi visto no momento. A observação é apenas uma parte do processo de resolução de um problema e, muitas vezes, o que é visto pode ser apenas o efeito ou a consequência do mesmo.

Então, se observação não entrega as respostas, qual o caminho a seguir? Continuando no exemplo, precisamos validar nossas hipóteses.

Com isso, chegamos na última parte da transcrição:

[Ibn Al-Hazen] Como buscadores da verdade, devemos também suspeitar e questionar nossas próprias ideias ao investigarmos fatos para evitar preconceitos ou pensamentos descuidados. Sigam este caminho e a verdade lhes será revelada.

Muitas vezes nosso trabalho nos faz acreditar que já sabemos o que funciona e o que não funciona. Mas é justamente aqui que podemos buscar a excelência. Questionar o que fazemos é como observar nosso trabalho com novos olhos e encontrar novas oportunidades de melhorar ou refazer o que parecia estar pronto.

Hoje, na RD, designer ou não, todos buscamos as respostas que possam nos ajudar a entregar o sucesso para nossos clientes. Encontramos problemas, questionamos o que está feito, pesquisamos referências de quem já fez, coletamos dados qualitativos e testamos hipóteses até obter os argumentos e experiências necessários para entender onde investir para atingir os objetivos do nosso negócio e de nossos clientes.

Pelo menos até nos questionarmos novamente…

Rodrigo Quaresma

Rodrigo Quaresma

Designer

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